Quem Matou o Eu Podia Tá Matando?

Não, ao contrário do que dizem por aí eu não morri. Como disse Mark Twain, “the reports of my death are greatly exaggerated”. Estou vivo, pelo menos enquanto escrevo esse texto. O blog por outro lado, se considerarmos a frequência de atualizações, podemos considerar morto. Embora eu já tenha tentado várias reanimações, o arranque de vida é logo substituído pelo silêncio. Uma parte relutante de mim ainda acredita que eu posso colocar as coisas de volta no lugar e fazer disso aqui um lugar vibrante outra vez. O meu lado analítico mostra por a mais b que a energia necessária seria maior da que eu a que eu estaria disposta a investir. Resta agora abraçar a finitude das coisas, celebrar o caminho percorrido e com esse derradeiro texto, o rito de passagem, entender quem matou o eu podia tá matando.

Mas primeiro, o caminho percorrido. 2007. Eu tinha um outro blog com conteúdos muito variados e boa parte do conteúdo poderia muito bem ser considerado ilegal pelas leis vigentes. Eu convidei dois amigos também estudantes do curso de Ciência da Computação na UFC para começar um blog do zero. O objetivo não era nada modesto, ser o maior e melhor blog do Brasil. O metodologia não era mais complicada que o objetivo, escrever coisas que eu gostaria de ler. Nessas mais de mil postagens que se seguiram eu aprendi muita coisa, me diverti muito, conheci muita gente e fiz algum dinheiro. Não foram poucas as oportunidades que apareceram através do blog. Em termos de conteúdo  está tudo aí pra quem quiser ver. Minha intenção e manter tudo disponível.

Abaixo estão, sem nenhuma preocupação com ordenações, os principais suspeitos de matar o eu podia tá matando.

Twitter

Seria um dócil passarinho azul um devorador de blogs? Talvez. Eu comecei a usar o Twitter em Agosto de 2007 e a primeira coisa que eu pensei foi — que ideia mais idiota. Essa ideia idiota aos poucos começou a se alimentar da minha criatividade. A faísca criativa que até então explodia deixando para trás longas escrituras agora incendeiam não mais que 128 caracteres.

Escrever é uma das formas de transbordar aquilo que não cabe dentro de si. Um texto ou mesmo uma postagem de imagem no blog as vezes me levava horas. A concepção da ideia, a escrita do texto, correções ortográficas, pesquisa de fontes, imagens, encontrar os autores originais, modificar imagens, agendar a postagem, escolher o dia e a hora certa pra postar. Além disso uma preocupação em manter tudo imensamente ilustrado.

Comparado com isso o que tuitar? Um arroto? Uma pequena válvula de escape. Níveis de pressão dentro de limites confortáveis para o ego mas nocivos para a utilização da criatividade.

Audiência

Se no meu twitter estou limitado a uma audiência de pouco mais de mil pessoas enquanto circulavam por aqui, nos momentos áureos, dezenas de milhares de leitores por dia. A audiência cresceu muito. O boca a boca por Orkut e por email trazia hordas de leitores sedentos por conteúdo todas as manhãs.  Inicialmente eu adorava isso. Era uma métrica. Mais gente, mais visualizações, mais cliques no anúncios, mais grana, uma audiência maior é bom né?

Nem tanto. O aumento da audiência teve dois impactos diretos.

Grana

Fazer dinheiro por si só nunca foi meu foco aqui. Quando eu comecei aqui era estudante, por um tempo ganhando uma bolsa de iniciação científica. Uma grana que era ínfima mas que eu sou eternamento grato. Qualquer outra fonte de recursos era bom. Era um jantar legal de vez em quando ou um cinema, não fazia mal nenhum mas também não fazia muita falta. A satisfação da grana era, novamente, uma métrica. Eu passava muito tempo no computador e havia uma pressão para que eu me tornasse um membro produtivo da sociedade. Se você esfrega dinheiro no nariz de alguém te entendem como um membro produtivo da sociedade. Bem Scarface, saca? Quando a audiência aumento veio uma grana. Nada demais mas pra um estudante já era alguma coisa.

Fora isso eu nunca tive um plano de negócios, um bom media-kit ou uma inclinação a transformar o blog no meu sustento. Um site/blog de sucesso não é nada mais do que uma empresa. Daria pra viver do blog? Sim, desde que houvesse uma dedicação integral ao blog (como eu disse, é uma empresa). Além do risco eminente de se perder toda a graça eu não podia me dedicar integralmente ao blog porque eu tinha outros objetivos que demandavam o meu tempo. Estudos, carreira, relacionamentos e o meu querido ócio.

E por outro lado como eu disse antes, houveram os ganhos intangíveis. Esses foram muitos e não é exagero dizer que o blog me ajudou muito na minha carreira.

Conteúdo

Então, veio essa audiência, o impacto no faturamento do blog e outro no conteúdo. Eu queria oferecer mais conteúdo, atualizações diárias, a essa altura eu já mantinha o blog sozinho e não havia vazão suficiente pra conteúdo. Então, para preencher o vazio cronológico entre dois textos eu comecei a postar imagens. Isso se encaixava no premissa de ter um site onde eu lia/via coisas que eu gostaria de ler/ver. Então fazia sentido.

Aqui eu preciso fazer um imenso parêntesis pra explicar uma coisa que é como eu vejo o fluxo de conteúdos na internet.

(

↑ um imenso parêntesis. hehehehe.

Você precisa entender a pirâmide. Observe o gráfico.

A largura de cada altura é a quantidade de conteúdo. No topo da pirâmide há pouco conteúdo.

Há quatro lugares importantes aqui.

  1. Criação. Há os que criam. Eles são poucos. Há mais gente assistindo filmes do que fazendo filmes. Há mais gente escutando a música do que criando a música. Há mais gente no palco do que na plateia. A internet possibilitou que mais gente criasse e divulgasse seu trabalho? Sim, mas não mudou a relação de grandeza entre a criação e a reprodução. Conteúdo original, verde e de qualidade é dessa piramide e a gravidade puxa ele pra baixo, irrigando a estrutura.
  2. Seleção. Eu demorei muito pra perceber que existe uma camada entre a criação e a reprodução. Eu achava que a criação era muito rica de criatividade e a reprodução era muito pobre. A seleção é justamente o meio termo. Antes de um conteúdo chegar a ser massificadamente reproduzido há essa camada que seleciona que conteúdo vai para baixo e para onde. É uma tarefa híbrida. É uma forma de reprodução uma vez que você coloca conteúdo para um público mas o ato de selecionar em si é um ato que exige uma certa criatividade. Tênue, não há uma separação clara de onde começa a seleção e termina a criação pura ou onde termina a seleção e começa a reprodução pura. Quando você retuíta você está selecionado e reproduzindo. Quando você compartilha no Facebook, você está selecionando e reproduzindo. Quando eu coloco um conteúdo não original aqui eu estava fazendo o mesmo.
  3. Reprodução. A repetição exaustiva e massificada do conteúdo. O mesmo conteúdo sendo repetido por várias pessoas que faziam isso de uma maneira habitual. Se no topo o autor é bem conhecido ele vai se perdendo e aqui em baixo ele não só é desconhecido como possivelmente está atribuído à pessoa errada. As piadas sutis e de referencia vão se perdendo dando lugar as imagens de jpg de baixa qualidade com um círculo vermelho apontando a piada. É o Faustão narrando a video-cacetada explicando porque que ela é engraçada.Mas atenção! O topo e a base da piramide são só teóricos. Elas não existem na sua forma pura, ou seja, não existe a reprodução pura sem um processo minimamente criativo de seleção assim como tão pouco alguém consegue parir uma ideia 100% original.
  4. Fluxos! Há poucos conteúdos originais e há muito conteúdo repetido. Onde há um desnível haverá um fluxo. Aqui ele é representado na piramide pela grande seta branca para baixo na mesma direção da gravidade. Como um fluído, esse conteúdo ao cair com força criam vórtices. Um deles e a turbulência no processo de repetição. É a repetição que alimenta a própria repetição. Outro muito importante vem da repetição que consegue propulsionar algumas partículas com energia suficiente para chegar novamente à criação. É a cultura pop. Andy Warhol. Resignificação. Memes. É a antropofagia da pirâmide.

Isso não é tudo mas resume a maior parte. O muito importante não lutar contra essas forças mas entende-las e achar onde você quer estar. How I Learned to Stop Worrying and Love the Pyramid.

)

Voltando dessa viagem sobre pirâmides, eu posso dizer que eu demorei muito pra entender e respeitar que este blog tinha um papel de criação, seleção e reprodução.

Auto-censura

E dessa fusão da problemática do conteúdo e com o aumento de leitores veio a auto-censura. Uma coisa que pode te matar, criativamente falando. O público cresceu e eu não me identificava com ele. Ele não entendia as piadas.

Eu tenho que pontuar que sempre houveram as exceções e não era incomum a qualidade de alguns comentários superarem em muito a qualidade do conteúdo da postagem em si. Mesmo assim eu segui com a metodologia de deixar os comentários o mais aberto quanto possível, ainda quando os comentários eram de baixa qualidade ou quando tentavam atentar contra minha honra. Eu só me vi obrigado mesmo a deletar comentários aqui quando eles incitavam o ódio e a violência, e por razões legais. Não é que eu ache que esse seja o modelo ideal de moderação de comentários mas é o modelo que eu quis experimentar. Que ninguém se engane, isso não é uma democracia, o blog é meu e eu, gentilmente, cedo esse espaço.

Mas os comentários mesmo em si nunca foram muito o problema. Eu descobri que eu consigo ignorar o debate raso na forma de xingamentos e ameaças de morte e engajar em debates a nível de idéias. Embora que esse último mais raro. Foi uma descoberta sobre mim mesmo importante porque eu achava que no inicio do blog que isso ia ser um grande problema. A questão mesmo foi que esse público novo queria aquele conteúdo com a piada circulado em vermelho.

Eu comecei a me levar pelos comentários de “não entedi”  cada vez mais frequentes e comecei a pegar leve no conteúdo. Não colocar referencias que eu julgava muito obscuras para esse grande público. Além disso havia uma demanda que eu comentasse os acontecimentos mais recentes. Uma celebridade escorregou numa casca de banana? Tem que fazer piada com isso. Não era uma obrigação mas havia uma expectativa. Eu sai um pouco da premissa básica de escrever coisas que eu gostaria de ler e isso foi um grande equívoco. Eu deveria ser sempre o meu leitor mais importe sempre.

Concorrentes

Essa é a parte boa. Quando eu comecei o blog ter um blog era uma coisa já ultrapassada e superada. Era visto como uma coisa juvenil. Sinônimo de diário.”Querido diário, hoje ela olhou pra mim…”. Por outro lado era também uma época que essa visão estava mudando porque haviam alguns blogs influentes e mais importe, gente ganhando dinheiro com blos. Aquilo que eu falei de esfregar dinheiro na fuça de alguém aplicado a uma escala macroscópica. Blog era uma buzzword.

A maioria esmagadora dos blogs era simplesmente ruim. A base da piramide. Quando eu disse que minha meta era ser o melhor blog do Brasil não era porque eu me achasse extraordinário mas porque era uma meta perfeitamente factível, meus concorrentes eram fracos. Na verdade, eu nunca vi ninguém como concorrente. Eu basicamente não lia outros blogs. Também nunca fiz troca de links, atividade que eu considero meio tonta mas não vou fazer outro parenteses.

Mas quase cinco anos depois as coisas felizmente mudaram um pouco. Hoje a muitos blogs legais. Eu continuo não sendo um leitor mas eu sinto que eles estão lá. Melhor do que isso, as pessoas se descolaram dentro daquela piramide. Ela achatou um pouco. Os blogs em si permaneceram no mesmo lugar mas as outras ferramentas se aperfeiçoaram e automatizaram as tarefas de criação, filtragem e reprodução. As pessoas hoje consomem um pouco menos, reproduzem bem mais, filtram um pouco e eventualmente até se aventuram em criar ou recriar alguma coisa. Colocando de uma maneira simples basta comparar. Antes até chegar a um primeiro conteúdo, publicado e com uma url na internet haviam muitos passos. Hoje basta dar um retweet no Twitter. Um share no Facebook. Um reblog no Tumblr. Nos blogs o processo de replicação e referencia continua artesanal e cheio de mimimi.

Eu acho isso ruim? Maldita inclusão digital? Não meu filho, eu acho isso o ótimo. Eu acho o máximo. Fico muito feliz. Eu quero mais é que as pessoas se emancipem. Que elas corram atrás do conteúdo que elas amem, criem o conteúdo que elas ame e que tenham a mente aberta pra aprender a amar.

:*

Tempo

Essa é uma desculpa medíocre. Não existe falta de tempo. É um amigo invisível que a gente cria pra projetar a responsabilidade pela nossa incompetência. Assim como há quem crie um amigo invisível pra projetar os acontecimentos afortunados. Falta tempo pra isso ou pra aquilo mas se você olha pra trás deu tempo você fazer um monte de merda também.

Por outro lado, existem as Prioridades™. Basta usar um pouquinho de Prioridades™ naquilo que você deseja e magicamente você consegue ajustar o seu tempo para alocar tudo o que você realmente quer. Prioridades™ é um produto fantástico que realmente funciona e possui milhares de usuários felizes em todo o mundo. Eu não usei muito de Prioridades™ no blog porque eu tinha que usar em outras coisas também. Se você ler o manual que vem na caixa do Prioridades™ está bem claro que se você usar Prioridades™ em tudo ele perde completamente o efeito.

É bem verdade que quando eu comecei eu era estudante e tinha muito mais “tempo livre” mas não era o tempo que era livre. O estudante, a juventude é uma coisa maravilhosa. Enquanto eu vejo tudo criminalizar a juventude eu só tenho a dizer justamente o oposto. O estudante por natureza não está preso ainda na mercantilização da sua criatividade e energia e ele pode usar isso pro que ele bem entender. É uma fonte de inovação, reflexão e transformação. Eu pude dedicar um pouco dessa energia pro blog e também dediquei a muitas outras coisas.

E com o tempo minha rotina foi se alterando. As cadeiras extenuantes da faculdade. As mudanças na vida. Empregos. Hoje eu atuo como desenvolvedor e consultor de TI, longe do Brasil. Eu mantenho um outro blog, mais pessoal e técnico em silveiraneto.net. Continuo aprendendo muito e tento manter uma visão de estudante sobre a vida.

E quem matou o Eu Podia Tá Matando? O Twitter? A audiência? A grana? O conteúdo? A pirâmide? A Auto-censura? O Tempo? Formação de quadrilha? Eu? Você? Tudo isso?  Vou deixar essa pergunta em aberto.

Pode-se dizer que esse é o epitáfio do meu querido blog. Se me perguntarem porque o blog acabou eu posso dizer que ele acabou porque não era infinito. Posso também simplesmente apontar para esse texto.

Obrigado por tudo. Tchau.

portas

noiva headshot