Há quase dez anos atrás, 2001, lá estava eu assistindo o primeiro filme da trilogia do Senhor dos Anéis. Iguatemi, aqui em Fortaleza, no tempo em que o cinema ficava no andar de baixo da praça de alimentação e tinha um cheiro insuportável de mofo.

Uma das novidades era a produção de proporções faraônicas num filme de fantasia medieval, adaptação de um livro. Era o inicio dessa era, das adaptações. Também era novidade isso de ver filmes em sequencia. Claro que já haviam existido sequencias e trilogias, mas estas eram exceções e não regras. Naquela época você ia ver um filme, assistia e acabou. Gostou, gostou, não gostou, paciência. Sim, houve Matrix também, mas o primeiro Matrix foi em 1999 e o Matrix Reloaded só sairia em 2003, ou seja, até então tava todo mundo muito feliz com Matrix e também com a ideia de voltar pro cinema pra continuar uma história. Hoje em dia todo mundo tá acostumado, tem filme tipo “Fui na Esquina Comprar o Pão”, parte 1, 2 e 3.

Então, nessa época ainda, no final do primeiro filme eu fiquei meio – Acabou? Sim, e agora? E esse porra de anel vai pra onde? Como? Vou ter que esperar um ano? – era o início de uma era.

Um ano depois eu volto ao cinema. 2002, O Senhor dos Anéis: As Duas Torres. Ao contrário de todo mundo que eu conhecia, não li o livro. Não é que eu não goste de ler, muito pelo contrário, mas era mais uma questão de prioridades nas minhas escolhas literárias. Além disso, o livro custava uma pequena fortuna para um estudante como eu. Na biblioteca a fila de espera por ele era pelo menos tão longa quanto ele próprio. Volto ao cinema sem ler o livro e novamente um filme espetacular em todos os sentidos, exceto que eu não tinha entendido nada.

Em 2003 nem me dou ao trabalho de ir assistir O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei. Eu já não lembrava mais onde tava o anel e nem sabia que o rei tinha saído pra tá voltando.

Boa parte dos leitores já deve ter parado de ler e já estão nos comentários adjetivando minha querida mãe. Porém, até então eu não tinha nem gostado nem desgostado da trilogia, eu não tinha assistido ela toda. Nem iria assistir outra vez sem ter lido os livros, o que também não era uma prioridade.

Aí um belo dia eu encontrei uma promoção dos três livros do Senhor dos Anéis, mais o Hobbit e o Silmarillion por um preço ridículo no Submarino (no momento em que escrevo está R$ 48,90). Ou seja, o preço da coleção inteira mais dois livros está custando menos que o preço de um livro só na época do lançamento dos filmes. Também é possível comprar cada livro individualmente e muitos outros por 10 reais cada! Nem precisei pensar muito, fiz o pedido, em pouco tempo eu já estava com os livros em casa.

Ilustração do brasileiro Flavio Hoffe

Eu comecei por O Hobbit porque eu sabia que era a história que precedia O Senhor dos Anéis. O protagonista da história é o Bilbo Bolseiro, tio do Frodo, que nos filmes aparece rapidamente. Além de ser uma história ótima ele precede perfeitamente a saga, quase como se fosse parte dela.

Em seguida eu devorei A Sociedade do Anel, As Duas Torres e o Retorno do Rei. Apesar do detalhismo das descrições do Tolkien ser cansativo as vezes, ele conduz a trama muito bem. Eu só acho que ele peca as vezes no ritmo, enquanto na maior parte do tempo dezenas de páginas são gastas para detalhar pedra por pedra das aventuras, no último livro longos períodos são descritos em poucos parágrafos. Me causou uma certa estranheza, mas nada que estrague a experiencia como um todo. É uma história que te envolve num imenso mundo fantástico e cheio aventura que reuniu os elementos que formam hoje o que todos entendemos por fantasia medieval.

Minha próxima leitura do Tolkien vai ser O Silmarillion que eu tenho ótimas recomendações dele.

Isso já seria o suficiente pra eu recomendar fortemente esses livros. Mas se tratando de livros, do volume destes quatro livros e do tempo que é necessário dispensar para essa leitura, cabe também uma outra análise. A saga O Senhor dos Anéis é uma experiencia que modifica nossa visão sobre o mundo? É algo que você vá lembrar muitos anos depois? Isso é algo muito pessoal, vai variar de pessoa para pessoa. Para mim, ele também passa nesse teste.

“Muitos que vivem merecem morrer. Alguns que morrem merecem viver. Você pode lhes dar a vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém a morte, pois mesmo os mais sábios não podem ver os dois lados.” Gandalf

“Não é nossa função controlar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que pudermos para socorrer os tempos em que estamos inseridos, erradicando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que viverem depois tenham terra limpa para cultivar. Que tempo encontrarão não é nossa função determinar.” Gandalf

“Nenhum pai deveria ter de enterrar seu filho.” Théoden, rei Rohan, sobre seu filho Théodred (só lembro dessa no filme).

Quando terminei de ler os quatros livros passei para o meu objetivo que era assistir os três filme seguidos. Aqui fica outra dica, o do box de 6 dvds, um par com o filme e extras para cada um dos três filmes, no Submarino (agora por R$ 66,90 que dá R$ 11,15 por disco). Eu havia tentado baixar por Torrent como eu faço com quase tudo mas a qualidade não estava satisfatória e eu não estava com paciência pra baixar outro release. Aluguei, mas veio sem os três dvds de extras, então eu recomendo comprar esse box.

Óbvio que tive outra visão do filmes agora assistindo em série e tendo a bagagem dos livros. É claro que depois de ler os livros você tem a impressão que está assistindo um daqueles resumos de filme dos coelhinhos mas não vai ser eu quem vai dizer que o filme é pior que os livros. Não, os filmes são uma adaptação fantástica dos filmes, uma adaptação, não uma versão live action, são linguagens diferentes. Na verdade eles foram muito felizes nos cortes que fizeram. Não tem Tom Bombadil e várias sub histórias que eu achei descartáveis na leitura do livro, por exemplo a última no último livro, que eu não vou citar aqui pra evitar spoilers.

O detalhismo da obra de Tokien traz a capacidade de se granular. Fizeram um filme em 3 partes, mas poderiam ter feito em 6, poderiam ter feito em 9, poderiam ter feito um seriado de 10 temporadas e ainda iria funcionar.

Outro ponto forte e que por si só faz valer o filme é o Gollum/Sméagol vivido através da captura de movimentos de Andy Serkis, que rouba a cena a partir do segundo filme e protagoniza uma das que eu considero melhores cenas do cinema, o monólogo esquizofrênico entre as personalidades de Gollum e Sméagol presas no mesmo confuso corpo.

Em resumo, tanto para o livro como para a trilogia de filmes, a nota de 5 de 5 Schanauzers.

Nota 5

Inclusive O Hobbit tá vindo aí pros cinemas em 2011 com direção do Guillermo del Toro e com o próprio Peter Jackson como co-roteirista e na produção executiva. Com certeza vai ser um ótimo trabalho. A expectativa é que sejam dois filmes. O primeiro será algo mais atômico e o segundo servirá de ponte para a Sociedade do Anel. Se você é anão é sua chance de conseguir uma ponta no cinema, vão precisar de pelo menos 13. :)